História primeira : A morte de Rufos, o impiedoso.
Os dedos delicados da mulher desataram-se vagarosamente dos de Gabriel e pouco a pouco ele sentiu aquele lindo corpo desnudo se afastar do seu. Como de costume a mulher não disse nada antes de partir. Ela estava linda como sempre, com o seu longo cabelo castanho lhe caindo e contornando os seios bem feitos, a pele quase brilhava na penumbra do quarto, e antes que Gabriel pudesse fazer alguma coisa ela já havia atravessado a porta e desaparecido.
— Vamos! Acorde! — disse uma voz — Tenho um serviço para você cara! Espero que não esteja doidão.
Gabriel abriu os olhos e reconheceu Marcos, o contato que lhe dava emprego, se é que ele podia chamar aquilo de emprego, mas assim soava bem melhor.
— Coisa grande cara! Pagamento bom, uma parte agora e o resto quando o serviço estiver concluído — Continuou Marcos.
— E de quanto você fala? — Indagou Gabriel enquanto deixava a cama.
— Cem mil. Trinta agora e o resto depois.
— Humm... É o melhor serviço que já me deu. Quem eu tenho que matar?
— Rufos, o impiedoso.
— Então ele já está morto! Dê-me os trinta mil, já tenho planos para ele. — E dizendo isso Gabriel buscou a água mais gelada em seu refrigerador e num segundo o litro estava vazio. O apartamento de Gabriel era bem pequeno e muito bagunçado, estava localizado num bairro comum e de muitos prédios próximo ao centro de Asmodeus, Asmodeus é o nome da cidade onde essa história se passa.
— Ressaca em?!... — Disse Marcos. — Bebe e nem me convida! Você não tem modos seu sacana!... Já ouviu falar de Rufos não é?
— Sim. É um traficante novato. Vinte e oito anos e já possui um império, ou melhor, uma grande firma. Assassino bastante talentoso, muito respeitado e temido no meio. Muitos inimigos, muita gente incomodada com a sua tão rápida ascensão. — Falou Gabriel demonstrando pouco interesse e preocupação com o que dizia.
— Exato, é o que dizem por ai. Mas não é fácil de encontrá-lo, alias ninguém nunca o viu. Alguns chegam a duvidar da sua existência, mas ela parece ser real, pois, como você acabou de dizer, ele possui um império e existe muita gente trabalhando para ele. Mesmo assim ninguém nunca o viu nem sabem onde se esconde. Como você pretende encontrá-lo?
— Eu dou um jeito. — Nesse momento Gabriel estava procurando seus comprimidos no armário, só havia um ultimo frasquinho. Não eram comprimidos comuns, se tratava do “ponto vermelho”, uma nova droga capaz de deixar o homem mais exausto e sonolento completamente aceso e disposto por várias horas, e Gabriel precisava daquilo, pois nunca dormia bem e não podia vacilar durante os seus serviços ou lhe custaria à vida.
— Cara, você ta Fodido! — Exclamou Marcos. — Você não dorme e ainda usa “red dot” para continuar sem dormir. — Red dot era como a droga se chamava nos países de língua inglesa, mas no geral era assim chamada em qualquer lugar, pois além da grande disseminação da língua, era também uma forma bem mais rápida e prática de se referir à droga, e todos assim a chamavam em Asmodeus. — As alucinações estão piores?
— Estão a mesma coisa. — Nesse momento Gabriel pôs um frasquinho com as pequeninas bolinhas vermelhas no bolso da sua calça e na braguilha pôs a sua pistola 9 mm. — Vou sair e dar início ao trabalho. Pode mandar a grana.
Marcos retirou um envelope de dentro do seu paletó preto e o arremessou para Gabriel, que o abriu e dele retirou a quantia de cinco mil para levar consigo. O resto do dinheiro ele deixou no envelope e o guardou dentro do seu criado mudo.
— Tranque a porta quando sair. Pode beber vodka se quiser. — Disse, e logo em seguida Gabriel deixou o apartamento.
Gabriel agora estava andando pelas ruas de Asmodeus, eram sete horas da noite, ele sempre acordava tarde, e naquele momento já sabia para onde ir. Ao sinal do seu primeiro bocejo Gabriel buscou o frasquinho de red dot e engoliu um comprimido, não houve mais bocejos desde então e quase que imediatamente ele sentiu o efeito. Agora tudo parecia bastante claro em sua mente e nenhum ruído lhe escapava a atenção, estava concentrado, vazio e impiedoso. Com pouco mais de uma hora ele chegou à rua aonde sempre ia quando procurava alguma informação, ou apenas para tomar algum drink. Ninguém a chamava por seu nome real, provavelmente ninguém se lembrava mais dele, chamavam-na apenas de, “A rua paraíso”. A rua paraíso era a mais decadente do centro de Asmodeus e de toda a cidade, mas poderia ser o maior paraíso na terra se você fosse um drogado, um traficante, um ladrão, um assassino, uma prostituta (ou prostituto), um simples vadio, simpatizante de corrupção, ou alguém em busca de informações. Existiam muitas espeluncas nessa rua, bares, motéis, prostíbulos, e também havia casos onde os três existiam num único estabelecimento, assim era o “Salão”, aonde Gabriel sempre ia e onde acabara de entrar:
— Vejam! A Morte chegou! — Disse um homem qualquer que estava sentado numa das mesas com mais três amigos, “A Morte” era como muitos chamam Gabriel.
Gabriel não deu atenção ao comentário. Era inverno e estava fazendo muito frio naquela noite. Ele usava um velho sobretudo escuro que o deixava bastante discreto e soturno, parecia um vulto a se mover por entre as pessoas do estabelecimento. “O Salão” sempre estava lotado e não foi diferente nessa noite. Todas as mesas estavam ocupadas, mas elas nuca interessavam a Gabriel, ele sempre ia direto ao balcão onde o velho Alfredo religiosamente o esperava. Alfredo era uma das figuras mais venenosas de Asmodeus, adorava corromper garotinhas e durante a sua vida já havia corrompido muitas. Atualmente, com os seus setenta e um anos, ele se dedicava apenas ao gerenciamento do Salão, também gostava de acompanhar bem de perto as meninas que se ingressavam nos seus serviços, trabalhando para ele durante toda a vida, que em geral não durava muito.
— Olá velho! — Disse Gabriel sentando num dos bancos do balcão.
— Olá Gabriel! — Alfredo lhe respondeu encarando-o nos olhos. — O que procura hoje?
— Preciso de mais uns dois frascos.
— Dois mil.
Gabriel já tinha o dinheiro em mãos, já havia comprado a red dot muitas vezes em Alfredo, sabia bem como funcionavam as negociações por ali. Imediatamente entregou-lhe o dinheiro e o velho buscou os frascos atrás do balcão e lhes entregou.
— Onde encontro o Rufos? — Indagou Gabriel enquanto guardava a droga e ascendia um dos cigarros que trazia no bolso do sobretudo.
— Por quê? Quer comprar diretamente da fonte para economizar? Está achando caro o meu preço agora?
— Humm... — Gabriel pareceu pensativo. — Então você mudou de fornecedor. — Ouvindo isso imediatamente o velho mudou sua expressão tornando-a muito mais séria e ríspida, como se tivesse notado a besteira que acabara de falar. Mas agora não tinha mais jeito, ele conhecia aquele homem muito bem e sabia que nunca deixava algo escapar a sua aguçada percepção.
— É mudei sim! — respondeu após uma pequena pausa. — Tenho um lucro maior agora.
— Então você o conhece, não? — Gabriel tinha os olhos fixos no velho, e esse por sua vez não hesitava em encará-los, mesmo sentindo o avassalador peso que aquele olhar causava.
Dessa vez Alfredo demorou ainda mais que antes a dar uma resposta, pensava em muitas coisas, talvez fosse uma boa hora para jogar alguma desculpa; lançar o seu tão infalível veneno e ludibriar aquele homem como ele fazia facilmente com qualquer um. Mas Alfredo compreendia que nada escapava a aqueles sábios olhos cinzentos e ele nunca mentia para Gabriel, era a única pessoa do mundo impossível de ludibriar.
— Sim, eu o conheço. Sou o único em Asmodeus que pode afirmar isso. Você tem que caçá-lo?
— Sim.
— Humm... Entendo. Dessa vez você pede algo muito grande, vou ter que pedir um bom preço pela informação.
— Tudo bem.
— Cinqüenta mil.
Uma quantia bastante alta por uma informação, mas havia certa camaradagem entre Alfredo e Gabriel. Seus negócios eram sempre sinceros, suas palavras eram indiscutíveis e em nenhuma hipótese eram contrariadas. Estranhamente Alfredo era a única pessoa em que Gabriel confiava em toda a cidade, mesmo sendo ele o maior patife do lugar, e, se ele lhe pedia tal quantia pela informação, era justo que assim fosse, pois Alfredo era a única pessoa no mundo que lhe poderia fornecê-la. Além do mais, Gabriel não ligava muito para dinheiro. Bastava-se com o necessário para pagar as despesas básicas do condomínio, comprar bebida, comida, balas para a pistola, o que não fazia com quase nenhuma freqüência, pois ele nunca gastava uma bala desnecessariamente, e comprar a sua preciosa red dot.
— Fechado. — Respondeu quase que imediatamente. — Mas não tenho o dinheiro comigo nesse momento, dou-lhe amanhã sem falta, mas preciso que me conte o que sabe agora.
Alfredo nunca forneceria uma informação sem ser recompensado imediatamente, mas era Gabriel quem a pedia, era a única exceção em seu procedimento.
— Claro! Sei que você é um homem de palavra. — Disse o velho. — Ora vejamos!... Rufos... Ele vinha aqui com o pai quando era apenas um garotinho, conheço-o bem...
Rufos:
Rufos viveu grande parte da vida no bairro mais pobre de Asmodeus, apelidavam-no de, “A toca dos vermes”. A toca dos vermes era para onde iam todas as pessoas improdutivas da cidade, logo o bairro era constituído por desempregados que não possuíam nenhuma perspectiva de futuro, e assim as autoridades gostavam de mantê-lo. O seu pai era um homem muito inteligente, apesar de ser um bêbado desempregado, ele era poeta, um dos melhores da cidade, mas ninguém ligava para poesia em Asmodeus, e o único lugar onde o senhor Romero sentia-se bem para dar demonstrações do seu dom era no estabelecimento de Alfredo, no Salão.
As meninas de Alfredo adoravam ouvir as declamações do Sr. Romero, elas viajavam por lugares maravilhosos aonde nunca puderam estar e aonde sabiam que nunca estariam, mas, quando elas ouviam aquela voz sonora e aquela maravilhosa performance artística, imaginavam-se como as elegantes senhoras ricas e apaixonadas que viam em filmes e novelas. As meninas nunca cobravam os seus serviços ao senhor Romero, e ele sempre se deitava com alguma quando se sentia só.
O garoto Rufos tinha muita admiração pelo pai, mas ao mesmo tempo sentia ódio e indignação pelo falto de um homem tão culto ser um João ninguém e durante os anos isso lhe desenvolveu um repúdio imenso por pessoas. Rufos odiava pessoas, pois todos viam o seu pai como um lixo, e ele não podia admitir aquilo. Tinha o pai como o melhor homem do mundo, sabia que ele próprio não era ninguém, não era um menino inteligente, nunca havia ido à escola, mas o seu pai gostava muito de livros, o seu pai era um grande homem.
Um dia o garoto Rufos jurou que seria importante quando crescesse e assim honraria o seu pai. Jurou que seria o homem mais importante e temido de Asmodeus. Alfredo ainda lembrava muito bem daquele dia, quando viu o ódio e a determinação no olhar do garoto enquanto, olhando o seu pai declamar um de seus versos assistido com muita atenção pelas garotas, ele repetia: Um dia dominarei todas as pessoas dessa cidade, ele tinha doze anos.
No mesmo instante em que, no salão, o velho Alfredo falava de Rufos para Gabriel, muito distante dali, o próprio Rufos assistia a uma ópera no teatro municipal em uma cabine vip dotada de todo luxo e conforto que somente alguém muito rico poderia usufruir. Apesar de jovem, Rufos sugeria mais idade do que possuía, tinha uma feição séria e madura, rígida, era um homem fechado e de muito poucas palavras, apreciava muito a solidão, mas naquela noite ele estava acompanhado da bela Anna, uma modelo muito bem sucedida e que só saia com os homens mais ricos poderosos.
— Não entendo como você gosta de assistir uma coisa dessas, não vejo graça nenhuma. — Disse Anna se referindo a Opera, que era Carmen.
— Com o tempo se aprende a gostar. — Respondeu Rufos e parecia distante. — E uma pessoa de quem gostei muito iria adorar estar aqui. — Continuou, e claro que ele se referia ao falecido pai, pois ele nunca gostou de mais ninguém.
Rufos nunca havia pensado em sua morte, Jamais havia parado para pensar em tal assunto, pois não tinha medo de nada, muito menos da morte. Mas naquele instante ele sentiu uma estranha sensação de perigo. Nesse exato momento Alfredo revelava a Gabriel que muito provavelmente Rufos estaria no teatro municipal, pois seria representada a opera Carmen naquela noite e Alfredo sabia que aquela era a opera favorita do traficante, pois era a opera que o Sr. Romero gostava de ouvir. Algumas horas depois Rufos descia os degraus da saída do teatro, uma multidão fazia o mesmo, ele segurou a mão de Anna como nunca fizera antes e pareceu tentar falar alguma coisa, quando percebeu um homem usando sobretudo e fumando um cigarro observando-o como nunca antes alguém o observou, aquele homem parecia conhecê-lo bem.
— Vá sozinha! — Disse Rufos a Anna.
— Como assim? Eu não quero ir sem você. — Respondeu ela indignada.
— Por que diz isso Mulher? Eu nunca estou com você de verdade, não me importo com você. — Rufos estava frio como nunca antes Anna o vira.
— Seu desgraçado!... — Ela mostrou muito ódio no rosto. — Tudo bem, adeus! Nunca mais quero voltar a ver a sua cara — E então Anna desapareceu no meio da multidão.
Rufos não planejava ir até o seu carro, ele enfiou a mão direita por trás do paletó e alcançou sua pistola que estava escondida em sua cintura traseira, esse gesto lhe trazia segurança, em seguida ele esperou um grupo de pessoas passarem entre ele e o estranho que o observa. Foi questão de segundos, as pessoas passaram e quando Gabriel procurou Rufos ele já havia desaparecido, o que provou as suas suspeitas, aquele realmente era Rufos, um desgraçado sempre reconhece outro. O homem de um metro e noventa havia desaparecido, mas Gabriel possuía um olhar muito rápido e de instinto caçador. Não demorou muito até que ele encontrasse novamente Rufos que se esgueirava sorrateiramente numa ruela escura. Imediatamente Gabriel jogou o cigarro que estava prestes a acabar e correu na direção da sua caça, que, percebendo-o, também se pôs a correr com muita velocidade adentrando todas as ruelas que via pela frente. Rufos sabia para onde ir, na direção que estava logo deixaria aquele bairro rico, alcançaria uma das suas áreas e então estaria longe de perigo, era só se esconder num dos seus “quartéis”. Mas ele não fazia idéia de quem o perseguia e tinha apenas uma intuição ruim sobre o individuo. Nem mesmo a polícia sabia da aparência de Rufos, como alguém poderia estar caçando-o daquele jeito, e por quê? Ele pensava muito enquanto fugia, até que finalmente chegara a uma grande avenida, era a Avenida Dez de maio, homenagem a um feriado de Asmodeus. Era só atravessá-la e Rufos estaria a salvo, pois muito dos seus chegados o esperavam a apenas dois quarteirões dali, mas Gabriel achou que aquele seria o melhor momento para um tiro certeiro. A distância do alvo era grande, era praticamente impossível acertar, mas Gabriel nunca errava. Sua precisão era muito acima da média humana. Nunca alguém escapou de Gabriel, não seria agora o momento de falhar.
Rufos não pôde acreditar naquilo, sentiu uma dor insuportável em seu tendão direito e imediatamente o seu pé já era inútil, ele caiu no meio da avenida. “Quem é esse homem?”, disse a si mesmo, e nesse momento todas as pessoas que estavam por perto correram desesperadas assim que ouviram o barulho do único disparo. Gabriel caminhou lentamente até a sua caça abatida e quando estava bem próximo lhe falou:
— Rufos, o impiedoso. Espero que tenha feito muito sexo hoje, pois esse foi o seu ultimo dia. — E dizendo isso apontou a arma para a cabeça da sua vitima.
— Gosta de poesia? — indagou-lhe Rufos, fazendo muita força para não deixar tão visível a dor que sentia.
— Talvez. — Gabriel ainda mantinha a arma apontada.
Rufos deixou escapar um contido gemido de dor e logo em seguida recitou os seguintes versos:
“E por mais que eu almeje o céu tranqüilo
O calor do inferno aumenta, posso senti-lo em meus pés
Aonde quero chegar?
Para quê luto tanto?...
Mas algo me diz que já terminei o que vim fazer,
Agora só me resta o silêncio...”
— Foi você quem a escreveu? — Indagou Gabriel ainda imóvel.
— Sim, mas nunca mostrei a ninguém. Essa é a estrofe final. — Rufos estava melancólico e essas foram suas ultimas palavras, em seguida ele já tinha uma bala no meio da testa.
—————————————
Gabriel deixou rapidamente o lugar antes que a polícia estivesse ali, pois ele era um dos homens mais procurados pela lei. Andou para longe da confusão que causou e quando se viu seguro buscou um táxi e partiu para o seu apartamento. Chegando em casa encontrou um bilhete deixado por Marcos avisando que ele estaria ali no dia seguinte para lhe levar o restante da recompensa. Tirou o sobretudo e a roupa que usava por baixo, assim como a calça, e ficou de cueca, como gostava de ficar em casa, ascendeu um cigarro e ligou a TV para fingir que assistia, mas ele não prestava atenção em nada que estava passando, esperava apenas o ultimo noticiário da noite para saber da repercussão do que acabara de realizar. Horas depois descobriu pela TV que o corpo encontrado naquela noite na av. dez de maio fora identificado pela policia como sendo o corpo do maior traficante de drogas que havia na cidade naqueles dias, cujo qual só haviam boatos, Rufos, Gabriel sorriu de soslaio.
— Muito bem! — disse uma voz muito grave e sobrenatural. — Mais um assassinato perfeito.
Gabriel se virou e viu uma figura sinistra que havia surgido de repente em sua sala. A coisa tinha o corpo de homem, muito musculoso, mas a parte inferior do corpo era de animal. Ele tinha enormes pés de galo e uma longa calda de serpente, possuía asas demoníacas e três cabeças, sendo elas uma de homem, uma de touro e uma de carneiro. A figura horrenda era o próprio Asmodeus, o grande rei dos demônios e o grande julgador.
— Foi sim. — Respondeu Gabriel sem nenhuma surpresa com o que via.
— Sim... Eu fiz a melhor escolha. — Disse o demônio. — Vim só para te dar os parabéns, já vou indo. Mais tarde o Súcubo vem te visitar outra vez. Divirta-se e comemore bem a sua vitória. — E desapareceu.
Gabriel ficou ainda no mesmo lugar por muitas horas até que seu maço de cigarros chegou ao fim, com isso ele foi se deitar. O sono demorou muito a vir, como sempre, mas quando ele começou a sentir os olhos pesarem a mesma mulher de antes abriu a porta do seu quarto, nua como sempre surgia, e Gabriel pareceu preso por um feitiço, ele amava aquela mulher, pois assim o seu olhar denunciava claramente.
— Ainda não terminei o que vim fazer, meu caro Rufos. — Disse a si mesmo. — Ainda não é hora do silêncio.
— Vamos! Acorde! — disse uma voz — Tenho um serviço para você cara! Espero que não esteja doidão.
Gabriel abriu os olhos e reconheceu Marcos, o contato que lhe dava emprego, se é que ele podia chamar aquilo de emprego, mas assim soava bem melhor.
— Coisa grande cara! Pagamento bom, uma parte agora e o resto quando o serviço estiver concluído — Continuou Marcos.
— E de quanto você fala? — Indagou Gabriel enquanto deixava a cama.
— Cem mil. Trinta agora e o resto depois.
— Humm... É o melhor serviço que já me deu. Quem eu tenho que matar?
— Rufos, o impiedoso.
— Então ele já está morto! Dê-me os trinta mil, já tenho planos para ele. — E dizendo isso Gabriel buscou a água mais gelada em seu refrigerador e num segundo o litro estava vazio. O apartamento de Gabriel era bem pequeno e muito bagunçado, estava localizado num bairro comum e de muitos prédios próximo ao centro de Asmodeus, Asmodeus é o nome da cidade onde essa história se passa.
— Ressaca em?!... — Disse Marcos. — Bebe e nem me convida! Você não tem modos seu sacana!... Já ouviu falar de Rufos não é?
— Sim. É um traficante novato. Vinte e oito anos e já possui um império, ou melhor, uma grande firma. Assassino bastante talentoso, muito respeitado e temido no meio. Muitos inimigos, muita gente incomodada com a sua tão rápida ascensão. — Falou Gabriel demonstrando pouco interesse e preocupação com o que dizia.
— Exato, é o que dizem por ai. Mas não é fácil de encontrá-lo, alias ninguém nunca o viu. Alguns chegam a duvidar da sua existência, mas ela parece ser real, pois, como você acabou de dizer, ele possui um império e existe muita gente trabalhando para ele. Mesmo assim ninguém nunca o viu nem sabem onde se esconde. Como você pretende encontrá-lo?
— Eu dou um jeito. — Nesse momento Gabriel estava procurando seus comprimidos no armário, só havia um ultimo frasquinho. Não eram comprimidos comuns, se tratava do “ponto vermelho”, uma nova droga capaz de deixar o homem mais exausto e sonolento completamente aceso e disposto por várias horas, e Gabriel precisava daquilo, pois nunca dormia bem e não podia vacilar durante os seus serviços ou lhe custaria à vida.
— Cara, você ta Fodido! — Exclamou Marcos. — Você não dorme e ainda usa “red dot” para continuar sem dormir. — Red dot era como a droga se chamava nos países de língua inglesa, mas no geral era assim chamada em qualquer lugar, pois além da grande disseminação da língua, era também uma forma bem mais rápida e prática de se referir à droga, e todos assim a chamavam em Asmodeus. — As alucinações estão piores?
— Estão a mesma coisa. — Nesse momento Gabriel pôs um frasquinho com as pequeninas bolinhas vermelhas no bolso da sua calça e na braguilha pôs a sua pistola 9 mm. — Vou sair e dar início ao trabalho. Pode mandar a grana.
Marcos retirou um envelope de dentro do seu paletó preto e o arremessou para Gabriel, que o abriu e dele retirou a quantia de cinco mil para levar consigo. O resto do dinheiro ele deixou no envelope e o guardou dentro do seu criado mudo.
— Tranque a porta quando sair. Pode beber vodka se quiser. — Disse, e logo em seguida Gabriel deixou o apartamento.
Gabriel agora estava andando pelas ruas de Asmodeus, eram sete horas da noite, ele sempre acordava tarde, e naquele momento já sabia para onde ir. Ao sinal do seu primeiro bocejo Gabriel buscou o frasquinho de red dot e engoliu um comprimido, não houve mais bocejos desde então e quase que imediatamente ele sentiu o efeito. Agora tudo parecia bastante claro em sua mente e nenhum ruído lhe escapava a atenção, estava concentrado, vazio e impiedoso. Com pouco mais de uma hora ele chegou à rua aonde sempre ia quando procurava alguma informação, ou apenas para tomar algum drink. Ninguém a chamava por seu nome real, provavelmente ninguém se lembrava mais dele, chamavam-na apenas de, “A rua paraíso”. A rua paraíso era a mais decadente do centro de Asmodeus e de toda a cidade, mas poderia ser o maior paraíso na terra se você fosse um drogado, um traficante, um ladrão, um assassino, uma prostituta (ou prostituto), um simples vadio, simpatizante de corrupção, ou alguém em busca de informações. Existiam muitas espeluncas nessa rua, bares, motéis, prostíbulos, e também havia casos onde os três existiam num único estabelecimento, assim era o “Salão”, aonde Gabriel sempre ia e onde acabara de entrar:
— Vejam! A Morte chegou! — Disse um homem qualquer que estava sentado numa das mesas com mais três amigos, “A Morte” era como muitos chamam Gabriel.
Gabriel não deu atenção ao comentário. Era inverno e estava fazendo muito frio naquela noite. Ele usava um velho sobretudo escuro que o deixava bastante discreto e soturno, parecia um vulto a se mover por entre as pessoas do estabelecimento. “O Salão” sempre estava lotado e não foi diferente nessa noite. Todas as mesas estavam ocupadas, mas elas nuca interessavam a Gabriel, ele sempre ia direto ao balcão onde o velho Alfredo religiosamente o esperava. Alfredo era uma das figuras mais venenosas de Asmodeus, adorava corromper garotinhas e durante a sua vida já havia corrompido muitas. Atualmente, com os seus setenta e um anos, ele se dedicava apenas ao gerenciamento do Salão, também gostava de acompanhar bem de perto as meninas que se ingressavam nos seus serviços, trabalhando para ele durante toda a vida, que em geral não durava muito.
— Olá velho! — Disse Gabriel sentando num dos bancos do balcão.
— Olá Gabriel! — Alfredo lhe respondeu encarando-o nos olhos. — O que procura hoje?
— Preciso de mais uns dois frascos.
— Dois mil.
Gabriel já tinha o dinheiro em mãos, já havia comprado a red dot muitas vezes em Alfredo, sabia bem como funcionavam as negociações por ali. Imediatamente entregou-lhe o dinheiro e o velho buscou os frascos atrás do balcão e lhes entregou.
— Onde encontro o Rufos? — Indagou Gabriel enquanto guardava a droga e ascendia um dos cigarros que trazia no bolso do sobretudo.
— Por quê? Quer comprar diretamente da fonte para economizar? Está achando caro o meu preço agora?
— Humm... — Gabriel pareceu pensativo. — Então você mudou de fornecedor. — Ouvindo isso imediatamente o velho mudou sua expressão tornando-a muito mais séria e ríspida, como se tivesse notado a besteira que acabara de falar. Mas agora não tinha mais jeito, ele conhecia aquele homem muito bem e sabia que nunca deixava algo escapar a sua aguçada percepção.
— É mudei sim! — respondeu após uma pequena pausa. — Tenho um lucro maior agora.
— Então você o conhece, não? — Gabriel tinha os olhos fixos no velho, e esse por sua vez não hesitava em encará-los, mesmo sentindo o avassalador peso que aquele olhar causava.
Dessa vez Alfredo demorou ainda mais que antes a dar uma resposta, pensava em muitas coisas, talvez fosse uma boa hora para jogar alguma desculpa; lançar o seu tão infalível veneno e ludibriar aquele homem como ele fazia facilmente com qualquer um. Mas Alfredo compreendia que nada escapava a aqueles sábios olhos cinzentos e ele nunca mentia para Gabriel, era a única pessoa do mundo impossível de ludibriar.
— Sim, eu o conheço. Sou o único em Asmodeus que pode afirmar isso. Você tem que caçá-lo?
— Sim.
— Humm... Entendo. Dessa vez você pede algo muito grande, vou ter que pedir um bom preço pela informação.
— Tudo bem.
— Cinqüenta mil.
Uma quantia bastante alta por uma informação, mas havia certa camaradagem entre Alfredo e Gabriel. Seus negócios eram sempre sinceros, suas palavras eram indiscutíveis e em nenhuma hipótese eram contrariadas. Estranhamente Alfredo era a única pessoa em que Gabriel confiava em toda a cidade, mesmo sendo ele o maior patife do lugar, e, se ele lhe pedia tal quantia pela informação, era justo que assim fosse, pois Alfredo era a única pessoa no mundo que lhe poderia fornecê-la. Além do mais, Gabriel não ligava muito para dinheiro. Bastava-se com o necessário para pagar as despesas básicas do condomínio, comprar bebida, comida, balas para a pistola, o que não fazia com quase nenhuma freqüência, pois ele nunca gastava uma bala desnecessariamente, e comprar a sua preciosa red dot.
— Fechado. — Respondeu quase que imediatamente. — Mas não tenho o dinheiro comigo nesse momento, dou-lhe amanhã sem falta, mas preciso que me conte o que sabe agora.
Alfredo nunca forneceria uma informação sem ser recompensado imediatamente, mas era Gabriel quem a pedia, era a única exceção em seu procedimento.
— Claro! Sei que você é um homem de palavra. — Disse o velho. — Ora vejamos!... Rufos... Ele vinha aqui com o pai quando era apenas um garotinho, conheço-o bem...
Rufos:
Rufos viveu grande parte da vida no bairro mais pobre de Asmodeus, apelidavam-no de, “A toca dos vermes”. A toca dos vermes era para onde iam todas as pessoas improdutivas da cidade, logo o bairro era constituído por desempregados que não possuíam nenhuma perspectiva de futuro, e assim as autoridades gostavam de mantê-lo. O seu pai era um homem muito inteligente, apesar de ser um bêbado desempregado, ele era poeta, um dos melhores da cidade, mas ninguém ligava para poesia em Asmodeus, e o único lugar onde o senhor Romero sentia-se bem para dar demonstrações do seu dom era no estabelecimento de Alfredo, no Salão.
As meninas de Alfredo adoravam ouvir as declamações do Sr. Romero, elas viajavam por lugares maravilhosos aonde nunca puderam estar e aonde sabiam que nunca estariam, mas, quando elas ouviam aquela voz sonora e aquela maravilhosa performance artística, imaginavam-se como as elegantes senhoras ricas e apaixonadas que viam em filmes e novelas. As meninas nunca cobravam os seus serviços ao senhor Romero, e ele sempre se deitava com alguma quando se sentia só.
O garoto Rufos tinha muita admiração pelo pai, mas ao mesmo tempo sentia ódio e indignação pelo falto de um homem tão culto ser um João ninguém e durante os anos isso lhe desenvolveu um repúdio imenso por pessoas. Rufos odiava pessoas, pois todos viam o seu pai como um lixo, e ele não podia admitir aquilo. Tinha o pai como o melhor homem do mundo, sabia que ele próprio não era ninguém, não era um menino inteligente, nunca havia ido à escola, mas o seu pai gostava muito de livros, o seu pai era um grande homem.
Um dia o garoto Rufos jurou que seria importante quando crescesse e assim honraria o seu pai. Jurou que seria o homem mais importante e temido de Asmodeus. Alfredo ainda lembrava muito bem daquele dia, quando viu o ódio e a determinação no olhar do garoto enquanto, olhando o seu pai declamar um de seus versos assistido com muita atenção pelas garotas, ele repetia: Um dia dominarei todas as pessoas dessa cidade, ele tinha doze anos.
No mesmo instante em que, no salão, o velho Alfredo falava de Rufos para Gabriel, muito distante dali, o próprio Rufos assistia a uma ópera no teatro municipal em uma cabine vip dotada de todo luxo e conforto que somente alguém muito rico poderia usufruir. Apesar de jovem, Rufos sugeria mais idade do que possuía, tinha uma feição séria e madura, rígida, era um homem fechado e de muito poucas palavras, apreciava muito a solidão, mas naquela noite ele estava acompanhado da bela Anna, uma modelo muito bem sucedida e que só saia com os homens mais ricos poderosos.
— Não entendo como você gosta de assistir uma coisa dessas, não vejo graça nenhuma. — Disse Anna se referindo a Opera, que era Carmen.
— Com o tempo se aprende a gostar. — Respondeu Rufos e parecia distante. — E uma pessoa de quem gostei muito iria adorar estar aqui. — Continuou, e claro que ele se referia ao falecido pai, pois ele nunca gostou de mais ninguém.
Rufos nunca havia pensado em sua morte, Jamais havia parado para pensar em tal assunto, pois não tinha medo de nada, muito menos da morte. Mas naquele instante ele sentiu uma estranha sensação de perigo. Nesse exato momento Alfredo revelava a Gabriel que muito provavelmente Rufos estaria no teatro municipal, pois seria representada a opera Carmen naquela noite e Alfredo sabia que aquela era a opera favorita do traficante, pois era a opera que o Sr. Romero gostava de ouvir. Algumas horas depois Rufos descia os degraus da saída do teatro, uma multidão fazia o mesmo, ele segurou a mão de Anna como nunca fizera antes e pareceu tentar falar alguma coisa, quando percebeu um homem usando sobretudo e fumando um cigarro observando-o como nunca antes alguém o observou, aquele homem parecia conhecê-lo bem.
— Vá sozinha! — Disse Rufos a Anna.
— Como assim? Eu não quero ir sem você. — Respondeu ela indignada.
— Por que diz isso Mulher? Eu nunca estou com você de verdade, não me importo com você. — Rufos estava frio como nunca antes Anna o vira.
— Seu desgraçado!... — Ela mostrou muito ódio no rosto. — Tudo bem, adeus! Nunca mais quero voltar a ver a sua cara — E então Anna desapareceu no meio da multidão.
Rufos não planejava ir até o seu carro, ele enfiou a mão direita por trás do paletó e alcançou sua pistola que estava escondida em sua cintura traseira, esse gesto lhe trazia segurança, em seguida ele esperou um grupo de pessoas passarem entre ele e o estranho que o observa. Foi questão de segundos, as pessoas passaram e quando Gabriel procurou Rufos ele já havia desaparecido, o que provou as suas suspeitas, aquele realmente era Rufos, um desgraçado sempre reconhece outro. O homem de um metro e noventa havia desaparecido, mas Gabriel possuía um olhar muito rápido e de instinto caçador. Não demorou muito até que ele encontrasse novamente Rufos que se esgueirava sorrateiramente numa ruela escura. Imediatamente Gabriel jogou o cigarro que estava prestes a acabar e correu na direção da sua caça, que, percebendo-o, também se pôs a correr com muita velocidade adentrando todas as ruelas que via pela frente. Rufos sabia para onde ir, na direção que estava logo deixaria aquele bairro rico, alcançaria uma das suas áreas e então estaria longe de perigo, era só se esconder num dos seus “quartéis”. Mas ele não fazia idéia de quem o perseguia e tinha apenas uma intuição ruim sobre o individuo. Nem mesmo a polícia sabia da aparência de Rufos, como alguém poderia estar caçando-o daquele jeito, e por quê? Ele pensava muito enquanto fugia, até que finalmente chegara a uma grande avenida, era a Avenida Dez de maio, homenagem a um feriado de Asmodeus. Era só atravessá-la e Rufos estaria a salvo, pois muito dos seus chegados o esperavam a apenas dois quarteirões dali, mas Gabriel achou que aquele seria o melhor momento para um tiro certeiro. A distância do alvo era grande, era praticamente impossível acertar, mas Gabriel nunca errava. Sua precisão era muito acima da média humana. Nunca alguém escapou de Gabriel, não seria agora o momento de falhar.
Rufos não pôde acreditar naquilo, sentiu uma dor insuportável em seu tendão direito e imediatamente o seu pé já era inútil, ele caiu no meio da avenida. “Quem é esse homem?”, disse a si mesmo, e nesse momento todas as pessoas que estavam por perto correram desesperadas assim que ouviram o barulho do único disparo. Gabriel caminhou lentamente até a sua caça abatida e quando estava bem próximo lhe falou:
— Rufos, o impiedoso. Espero que tenha feito muito sexo hoje, pois esse foi o seu ultimo dia. — E dizendo isso apontou a arma para a cabeça da sua vitima.
— Gosta de poesia? — indagou-lhe Rufos, fazendo muita força para não deixar tão visível a dor que sentia.
— Talvez. — Gabriel ainda mantinha a arma apontada.
Rufos deixou escapar um contido gemido de dor e logo em seguida recitou os seguintes versos:
“E por mais que eu almeje o céu tranqüilo
O calor do inferno aumenta, posso senti-lo em meus pés
Aonde quero chegar?
Para quê luto tanto?...
Mas algo me diz que já terminei o que vim fazer,
Agora só me resta o silêncio...”
— Foi você quem a escreveu? — Indagou Gabriel ainda imóvel.
— Sim, mas nunca mostrei a ninguém. Essa é a estrofe final. — Rufos estava melancólico e essas foram suas ultimas palavras, em seguida ele já tinha uma bala no meio da testa.
—————————————
Gabriel deixou rapidamente o lugar antes que a polícia estivesse ali, pois ele era um dos homens mais procurados pela lei. Andou para longe da confusão que causou e quando se viu seguro buscou um táxi e partiu para o seu apartamento. Chegando em casa encontrou um bilhete deixado por Marcos avisando que ele estaria ali no dia seguinte para lhe levar o restante da recompensa. Tirou o sobretudo e a roupa que usava por baixo, assim como a calça, e ficou de cueca, como gostava de ficar em casa, ascendeu um cigarro e ligou a TV para fingir que assistia, mas ele não prestava atenção em nada que estava passando, esperava apenas o ultimo noticiário da noite para saber da repercussão do que acabara de realizar. Horas depois descobriu pela TV que o corpo encontrado naquela noite na av. dez de maio fora identificado pela policia como sendo o corpo do maior traficante de drogas que havia na cidade naqueles dias, cujo qual só haviam boatos, Rufos, Gabriel sorriu de soslaio.
— Muito bem! — disse uma voz muito grave e sobrenatural. — Mais um assassinato perfeito.
Gabriel se virou e viu uma figura sinistra que havia surgido de repente em sua sala. A coisa tinha o corpo de homem, muito musculoso, mas a parte inferior do corpo era de animal. Ele tinha enormes pés de galo e uma longa calda de serpente, possuía asas demoníacas e três cabeças, sendo elas uma de homem, uma de touro e uma de carneiro. A figura horrenda era o próprio Asmodeus, o grande rei dos demônios e o grande julgador.
— Foi sim. — Respondeu Gabriel sem nenhuma surpresa com o que via.
— Sim... Eu fiz a melhor escolha. — Disse o demônio. — Vim só para te dar os parabéns, já vou indo. Mais tarde o Súcubo vem te visitar outra vez. Divirta-se e comemore bem a sua vitória. — E desapareceu.
Gabriel ficou ainda no mesmo lugar por muitas horas até que seu maço de cigarros chegou ao fim, com isso ele foi se deitar. O sono demorou muito a vir, como sempre, mas quando ele começou a sentir os olhos pesarem a mesma mulher de antes abriu a porta do seu quarto, nua como sempre surgia, e Gabriel pareceu preso por um feitiço, ele amava aquela mulher, pois assim o seu olhar denunciava claramente.
— Ainda não terminei o que vim fazer, meu caro Rufos. — Disse a si mesmo. — Ainda não é hora do silêncio.